Especialistas alertam que o setor de segurança de IA está superinvestindo em ações públicas em detrimento de trabalhos institucionais discretos e de alto impacto.
Uma parcela significativa do trabalho que influencia a governança de inteligência artificial ocorre longe dos holofotes, em gabinetes ministeriais e fóruns internacionais. Enquanto cartas abertas, artigos e manifestações na imprensa dominam o debate público, a atuação técnica de servidores e consultores dentro de órgãos governamentais tem um efeito prático decisivo na formulação de políticas. Esse trabalho institucional interno atua de forma complementar ao poder legislativo, preenchendo lacunas técnicas e operacionais que as leis, por si só, não conseguem abranger.
A comunidade dedicada à segurança de IA, no entanto, tem direcionado seus esforços de forma desproporcional para o lado visível da regulação. Há um viés estrutural que valoriza a produção intelectual e as ações públicas, resultando em um subinvestimento nas chamadas "rotas invisíveis" de influência. Consequentemente, o setor pode estar perdendo oportunidades estratégicas de impacto real ao focar em ações de repercussão imediata, que nem sempre chegam aos tomadores de decisão que efetivamente redigem as normativas.
A transição da pesquisa técnica para a atuação política exige a compreensão de que o trabalho público não precisa ser necessariamente visível para ser eficaz. A negociação direta com burocracias nacionais e a participação em comitês internacionais, como os da OCDE e da ONU, dependem de um jogo de influência discreto. Esse formato de atuação, embora inicialmente estranho para profissionais com perfil técnico, demonstrou ser fundamental para o avanço de marcos regulatórios em diferentes países.
A discrepância entre a regulamentação teórica e a execução prática também explica as dificuldades de replicar modelos de ativismo de um país para outro. Iniciativas que funcionam em determinadas realidades políticas podem não ter o mesmo efeito em contextos institucionais distintos, onde a elaboração de políticas ocorre primariamente via poder executivo. O engajamento direto nesses espaços burocráticos é apontado como uma via indispensável para garantir que preocupações de segurança sejam incorporadas às legislações globais de forma eficaz.
A atuação técnica de servidores e consultores em gabinetes e fóruns internacionais preenche lacunas operacionais que as leis não abrangem, tendo um efeito prático decisivo e complementar ao poder legislativo na formulação de políticas.
O setor direciona esforços de forma desproporcional para ações públicas e de repercussão imediata, como cartas abertas, subinvestindo em rotas invisíveis de influência burocrática que efetivamente moldam as normativas.
Porque a elaboração de políticas ocorre de formas distintas. Em muitos contextos, a regulamentação acontece primariamente via poder executivo, exigindo engajamento direto e discreto com burocracias locais em vez de apenas ações públicas.